quarta-feira, 20 de abril de 2011

Carta para quem a carapuça servir




Olha, você pode até ter mais dinheiro que precisa, uma aparência melhor que a média, ou talvez seja prestigiado por uma inteligência maior. Mas não me venha atropelar os ouvidos com seus tratores de superficialidade e prepotência. Eu não mereço. A saliva gasta em críticas caberia melhor em um diálogo com si mesmo. Quem é bom de verdade não tem tempo para reafirmar superioridade aos outros.

Tenho pena dos seus pais, que esqueceram de mencionar à criança mimada que o mundo não tinha dois sóis. A falta de humildade é um vírus que atinge gerações inteiras, e você é apenas um ramo podre que alguém deixou crescer. Dos valores distorcidos nascem as escórias da humanidade: os preconceituosos, os espancadores de mulheres, os esnobes. Narizes empinados por uma falsa sensação de soberania. Deixa eu te contar um segredo: o mundo é maior que o seu umbigo.

Sei que existem idiotas devorados pelo conhecimento. O narcisismo intelectual é uma crendice incrivelmente burra. Doutores, senhores da lei, mestres das ciências exatas e humanas. Que proclamam autoridade através de um diploma pendurado na parede. Meu amigo, méritos acadêmicos não significam posições elevadas, apenas provam que você foi privilegiado por boas oportunidades. Todos temos algo para ensinar, como também aprender. O colega maltratado por não saber fazer cálculos, ou porque ainda é iletrado, pode provar-se um homem melhor. Viver, essa ciência empirista que se aperfeiçoa através dos tempos, não é questão de saberes. Todos chegam e partem com a mesma decência. Na morte, não existem distinções. Se for para esbanjar alguma coisa, que seja caráter.


terça-feira, 12 de abril de 2011

Só mais uma crítica social

*Esta é uma história verídica.
Infelizmente.



Brasília não é covil de ladrões, como prega a mentalidade nacional. Também não é só vazio e Legião Urbana. Nem tudo acaba em pizza. Perdida em um ponto indeciso do espaço, a primeira cidade bipolar. Não sabe se chove, ou se faz sol. Mas de boas iniciativas também se faz o cotidiano da capital. Ideia original de Luiz Amorim, açougueiro, a biblioteca popular coordenada pelo Açougue Cultural T-Bone chamou bastante atenção da mídia quando foi inaugurada, em 2007.

Funciona assim: estantes de livros são colocadas nas paradas de ônibus da cidade. O acervo é composto de doações. Qualquer um que passar por ali pode apanhar um exemplar emprestado, mergulhar em aventuras incríveis e, inspirado no ideal cívico, devolver. Nos últimos dias, 3 anos depois de satisfeita a empreitada, uma triste situação.


Os livros estão desaparecendo. Cada vez mais raros nas prateleiras de ferro, os sobreviventes desfolhados enfrentam a dura batalha contra o descaso. A cultura que nasceu para viajar pelos lares bem intencionados e depois voltar a outro ponto de partida, de repente abortada no meio do caminho. No cartaz afixado na parede, a denúncia envergonhada revela: carroceiro é o culpado de roubar os livros. Esse senhor de idade, que provavelmente não sabe ou lê mal, encontrou uma finalidade melhor para aquele tesouro a céu aberto. Vendeu tudo por quilo.


Brasília não é covil de ladrões, mas o Brasil, aparentemente, tem fome. E não é de leitura.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Bullying: outra perspectiva


Os psicólogos infantis que me perdoem, mas antes do termo bullying entrar na moda, agressões alheias eram tratadas como qualquer outro obstáculo. Nas escolas, o truque era ignorar. Lição muito mais valiosa que aquelas apreendidas nas modernas sessões de psicoterapia: nunca deixe nada, nem ninguém, afetá-lo. Mostrar que se importava era a pior maneira de reagir, expunha fraquezas que alimentavam o sadismo do algoz. A vingança, normalmente, chegava depois da formatura, no sucesso daqueles ditos fracassados. Os duros percalços da vida escolar moldavam cada caráter. Não se incentivava vitimização.


Quando era menina, minha irmã mais velha chegou em casa com os joelhos sangrando. Na corrida inocente do recreio, havia sido dolorosamente atirada ao chão por uma perna mal intencionada que se intrometeu no caminho. Ela odiou profundamente o menino que lhe fez isso. Longe de comover meu pai, suas lágrimas renderam-lhe uma surra inesquecível. Segundo ele, a culpa era só dela por deixar-se cair. Embora cruéis, tais ensinamentos fizeram de nós duas mulheres melhores. Meus pais jamais entraram na escola para contestar autoridades, ou vieram em nossa defesa quando alguém atirava pedras. Eu precisei passar por tudo isso sozinha.


Se existe bullying, é porque alguma criança aprendeu que deve sentir-se superior aos outros. Parte do próprio lar qualquer noção de respeito, aos pais é creditada toda culpa pelas atitudes mesquinhas de seus rebentos superprotegidos. Do lado mais fraco, tampouco foi ensinado algo. Socialização e repúdio ao preconceito deviam constar nas cartilhas infantis. Crianças criadas na era digital desaprendem ofícios antigos, como jogar bola na rua e brincar de pique. Bombardeados pela cultura de massa, admiram traços esteticamente convencionais e tornam-se adolescentes precoces. Quem não faz parte desse universo repleto de códigos de aceitação é excluído. Bullying sempre aconteceu. O que mudou é a ferocidade de seu novo contexto, que espalha violência além do pátio da escola. Mas, como qualquer sofrimento, existe para ensinar resistência. Quem não for capaz de superar isso durante a infância, dificilmente terá coragem suficiente para enfrentar o mundo adulto.

Curiosidade: O menino que derrubou minha irmã, mais tarde, tornou-se o primeiro namorado dela.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Até o fim

Metade de nós, talvez, jamais descubra como é. Se a morte que separa famílias já é dolorosa, imagine perder alguém que se amou por escolha. Depois de meio século de casamento, de repente amanhecer na cama vazia, sem suspiros preguiçosos e abraços amarrotados. Eu conheci um amor que durou até o fim. Nas lágrimas de uma mulher profundamente devastada pelo falecimento do marido, mais do que um sentimento de dependência, eu enxerguei coragem; de amar aquilo que é frágil, e deixar-se viver na esperança de um reencontro. Uma valentia cada vez mais rara.

O casamento deixou de ser um ritual de respeito, mesmo uma celebração de afeto. Como um castelo de areia, se desfaz ao mínimo toque. De obrigação, evoluiu para contrato, facilmente revogável por qualquer uma das partes. Não se sabe razão para insistir em imperfeições, a tolerância já não cabe no mesmo teto, qualquer deslize é motivo para fazer as malas. Mas a glória do vestido branco e das festividades pirotécnicas, ninguém dispensa. Nenhum compromisso é fácil de cumprir. Um que promete o infinito, então, está além da capacidade emocional de uma cultura que só exercita o desapego.

Problemas surgem e, às vezes, o inevitável acontece. Uma máscara que cai, outro sentimento sufocado por falta de zelo. Não é justo obrigar ao convívio casais de cera, perfeitos na teoria, frios ao toque. Mas se o amor não é forte o bastante para sobreviver ao mau tempo, dificilmente merece dividir o mesmo barco. Aprender a ceder deve ser o primeiro passo de quem pensa em se casar. Sem a disposição para fazer pequenos sacrifícios, a ruína é previsível. Qualquer relacionamento acaba, não existem vírgulas eternas. O final mais feliz é ficar junto, até que a morte, e somente ela, os separe.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Chique é ser estrangeiro

Se acaso a existência de extraterrestres fosse comprovada, provavelmente o primeiro lugar que eles escolheriam visitar seria o Brasil. Afinal, em nenhum outro país os forasteiros são tão homenageados. A recente visita do presidente dos Estados Unidos demonstrou todo o potencial da hospitalidade brasileira, com direito a criancinhas vertendo lágrimas e o Cristo Redentor inteiro para a família real. Cada passo do grande Imperador foi anunciado com estardalhaço, minuciosamente planejado, para que tudo fosse perfeito e adequado. Não parecia a chegada de um simples Chefe de Estado, mesmo que o maior. Aqui, Obama foi rei.

Fonte: O Globo


O mundo inteiro reconhece a ascensão econômica do Brasil, mas um país que não sabe comportar-se como gigante sempre será um anão de mentalidade encolhida. Ao contrário da China, nação mundialmente respeitada que enfrenta seus problemas de liberdade política, mas carrega em sua cultura milenar a dignidade e o orgulho; neste país o reconhecimento só é válido se vier de fora. Celebridades internacionais são ovacionadas, encontram Pelé, abraçam a Presidente ou são hospedadas por Luciano Huck e Angélica. Os brasileiros são os melhores anfitriões do mundo. É uma pena que, lá fora, não recebam a mesma cortesia.


Ashton Kutcher e Demi Moore na casa de Angélica e Luciano Huck, em Angra


É vergonhoso esse tratamento supervalorizado, se a necessidade de provar como o país é lindo e desenvolvido é maior que o investimento real em infra-estrutura e educação. Ainda mais constrangedor é notar que os brasileiros enchem de regalias os visitantes ilustres, mas são cheios de preconceitos contra os seus mais corajosos irmãos que, longe dos resorts e das praias paradisíacas, sofrem as mazelas de um outro Nordeste. Ser gentil e hospitaleiro não justifica agir como criaturas inferiores, sedentas de aprovação. Nada, no Brasil, é melhor que o brasileiro, embora ele freqüentemente se esqueça disso. Longe de afirmar-se como potência de dimensões culturais muito maiores do que futebol e samba, a postura do país permanece curvada, reforçando seus piores esteriótipos. Não dá para ter respeito por uma nação assim.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Comunique-se

Pense duas vezes, antes de falar. Mas não se cale para sempre. No fundo, não se trata de podar palavras, é apenas uma questão de saber dosá-las. Quem fala demais magoa sem querer. Se o silêncio persistir, no entanto, nada ficará a ser dito. Embora a necessidade de procurar medir nossos pensamentos antes de verbalizá-los seja inquestionável, reprimir idéias é censurar a si mesmo.

Curiosamente, todo mundo precisa de duas coisas: voz, e autocrítica. A coragem para dizer, com coerência, porque quem fala sem cuspir insultos é escutado, e uma boca cheia de opinião não engole mentiras. E autocrítica, para perceber a diferença entre se expressar e cair no ridículo.

Se o que estiver na ponta da língua for um elogio dado de bom grado, liberte, mas se for uma ofensa de má fé é melhor secar a saliva envenenada antes de contaminar alguém. Todos os dias, é preciso exercitar um pouco de diplomacia pessoal. Só não vale ser camaleão, mudar o que diz de acordo com quem escuta. Ou ficar em silêncio, por medo de represálias. E se ninguém puder ouvir?
Bom, para isso existem blogs e twitter.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Auto-crítica



Há muitas coisas a meu respeito que eu gostaria de mudar. Não estou falando do meu cabelo, do meu andar, de como o mundo me vê. Os olhos dos outros não importam, se existe um universo inteiro dentro de mim que ninguém jamais verá. Admito que pode ser, às vezes, um canto escuro de neuroses e angústias. Poucas vezes, tingiu-se de um cinza tão tenebroso, que achei impossível fugir. Em uma esquina do acaso, encheu-se de amor. Mas esse império que uma menininha tímida um dia ergueu dentro de si era feito de areia, e sucumbia ao mínimo deslizamento. Encontrou a solução perfeita para o problema em um dia de chuva. Perdeu a inocência, e ganhou um coração de pedra.


O excesso de amor por si mesmo gera orgulho, que por sua vez é um veneno sutil. Fortalece e mata, ao mesmo tempo. Demorei a perceber que, enquanto me defendia vorazmente ferindo os outros, eu também sangrava. Quando meu teto de vidro caiu, eu já sabia que podia me machucar muito mais vivendo na ilusão de que passaria incólume pela vida. Não existe aprendizado sem um pouquinho de dor. Foi quando decidi abrir um espaço na terra do meu gigantesco ego para os outros que descobri que as minhas fraquezas são maiores que eu pensava. A minha tolice passou despercebida, disfarçada de prepotência.


Eu não sei pedir perdão. Sou covarde, acima de tudo. Desisto no meio de um caminho que eu ainda nem comecei. Reclamo de tudo aquilo que se por acaso eu perdesse, levaria um pedaço de mim. Sou extremamente vulnerável a críticas. Choro no banho para que minhas lágrimas passem despercebidas. Não tenho paciência. Não sei cumprir promessas. Tenho pavor do fracasso. Andei errando, e admito. E só assim vou saber fazer certo da próxima vez. Embora eu freqüentemente lute contra dragões feitos de moinhos de vento, agora não culpo ninguém. O único inimigo a ser combatido é aquele que vive dentro de nós mesmos.