segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Como sempre, amor
Mas quando tem amor assim de verdade, é bonito de se ver. É motivo para viver a vida inteira com sorriso no rosto. Porque esse é um sentimento agregador. Quando vem de mansinho e se instala, aqui há de ficar com muitas doses de carinho, generosidade, compreensão. O problema é quando ele vai embora. Dói. Amor também passa. E nunca passa rápido.
Tem gente que começou amigo e de repente se enamorou. Acontece. Tem gente que amou tanto, que de repente passou a odiar. É tanta fronteira de sentidos que fica difícil descobrir onde fica o começo e o fim. O amor também se transforma.
E não se deixe confundir, porque paixão não é a mesma coisa. Paixão é amostra grátis de amor, tipo cafezinho que a gente bebe na ânsia de experimentar cada gota. Quando amadurece, pode até ser que fique. Mas em sua forma bruta é um fogo que extingue rápido, uma labareda apressada. Amor é paciente. É uma larva que vai roendo aos poucos.
Coisa linda é esse sentimento. Linda e perigosa. Pode ser venenoso. Pode machucar. É a esperança de uma gente solitária, que se agarra no outro, porque viver, vamos ser sinceros, é uma empreitada difícil demais para encarar sozinho. O amor é o tempero da vida. Pode ser unilateral, proibido, mas nunca errado. É preciso coragem para amar. No final, sempre vale a pena.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Sapatos
Na calçada da escola, a menina chorosa descalçava as sapatilhas de balé. Os pezinhos miúdos contorciam-se de dor. A mãe amorosa tentava massagear os dedinhos espremidos contra a resistência do cetim aveludado. "É aqui que está machucado?", perguntava. Enquanto assistia à cena - verídica - ocorreu-me que a vida de toda mulher pode ser resumida em sapatos.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Todo amor é uma forma de loucura
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Sobre a coragem de uma menina, ou a covardia de todos nós
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Meu sonho é ser mãe
Meu sonho é ser mãe.
Partilhar isso com os outros é constrangedor. É tão arcaico, agora, dizer que a natureza materna me seduz. Mas eu não abro mão da ideia. Quero mesmo é passar pela sensação única, imensurável, de segurar nos braços uma criatura que eu gerei. “Mas você só tem 20 anos!”, ouço frequentemente, como se a ideia fosse ser colocada em prática mês que vem. Revolta-me, sobretudo, o repúdio que a maternidade desperta nesses dias de ascensão. Como se a mulher, por ser independente, não pudesse sonhar com contos de fadas e filhos.
Nada contra as colegas corajosas que enfrentam a Marcha das Vadias e lutam por mais igualdade para o nosso sexo, ainda muito inferiorizado. A campanha que está rolando pelas redes sociais, inclusive, é uma das melhores que já vi. O que me entristece é a confusão que se faz entre ser feminista e ser feminina. Tenho vergonha de revelar o sonho que acalento em segredo, assim para todos ouvirem. Temo ser rechaçada por ainda ter a velha concepção de que um bebê completaria a minha existência.
Quero o direito de ser tratada de igual para igual, ter os mesmos salários, usar a roupa que eu quero sem ser julgada (ou estuprada) por isso. Essa vontade, no entanto, não anula meu desejo de constituir família. Para mim, mulher de verdade é essa, que sai para trabalhar, volta cansada e ainda cuida dos filhos. Esse é o modelo que tenho em casa, da mulher mais importante do mundo, aquela que me ensinou a ser digna. Quero amar e ser amada. Não sou menos feminista por isso.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Relatividade
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Crônica sobre o cansaço crônico de uma jornalista
Tinha essa mania desconfortável de ler demais. Como um cão farejador, não podia ver ninguém com um livro que já espichava o pescoço para conferir as informações primárias. Torcia o nariz quando a sinopse não agradava. E continha o riso quando sabia o que a lombada escondida: uma baita história, isso sim, ou talvez uma grande decepção. Um livro era um amigo. Mas também cansava deles, queria pedir um tempo, clamava por abstinência.
Ler era uma maldição, no caso dela. Os olhinhos pequenos, rápidos feito coelhos famintos, captavam os letreiros tão logo surgiam – as formas curvilíneas dos ABC espreguiçando-se no outdoor a serviço do mercado, as mensagens grafadas erradas como um crime à sua tolerância, e as indecências em comic sans para deixarem expressos os avisos de Não fume Por Favor Obrigado. Como havia poluição letrada nesse mundo! Não havia serenidade que aguentasse tanto burburinho. Porque as palavras falam. E mesmo que usem as nossas próprias vozes, elas podem ser bem irritantes.
Ler também era uma benção. Quando se perdia no próprio pensamento, afogava-se nos de outros e ficava tudo certo. Mas tinha dias que a cabeça não se aguentava, os olhos ardiam lacrimosos, precisava descansar. Não escapava das malditas letrinhas nem no banheiro, onde se curvava para conferir os rótulos de shampoo – sem sal, alisa sem danificar a estrutura dos fios, técnica revolucionária– tantas mentiras em palavras difíceis. Tinha dias que tudo que ela queria era acordar sem entender um pingo daquelas aranhas que teciam suas teias ao sabor das ideias.
Aí descobriu que podia escrever.