quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Desabafo


Estamos crescendo rápido demais. Não quero mais essas asas ingratas, que não alçam vôos para os lugares certos, só me levam para longe de mim. Estou cansada, e meus pés doem. Sinto sono o tempo inteiro, mas odeio esses lençóis frios e amarrotados, se preciso mesmo é da maciez de um colo qualquer. Essa casa não é um lar, aqui tudo é desarrumado e passageiro, inclusive nós. Acabou-se a euforia esnobe da adolescência, escorreu pelo ralo das responsabilidades, fez vingar os sermões paternais. Falta sempre dinheiro, tempo e amor. Se esse é o preço do reconhecimento, é deprimente se tornar alguém.

Aquela menina magrela de cabelos desgrenhados e canelas tortas, que desenhava no vento realidades imaginárias, foi-se embora em um tornado. Está claro que essa terra de espaços vazios e horizonte empoeirado não é mais o Kansas da minha infância. Perdi pelo caminho um punhado de amigos, e muitos sonhos de grandeza. É difícil ser um castelinho de papel em branco, prestes a ser esmagado pelo peso de qualquer fracasso. Tudo tem o seu tempo, mas chegamos ao momento derradeiro em que não se tem tudo o tempo todo.

Do alto dos tamancos de minha mãe, experimentando ali uma dúzia dos seus batons mais caros, pensava que ser gente grande fosse sempre um espetáculo. Não é. De repente você descobre que roupas de cama precisam ser trocadas, e que arroz e feijão são iguarias insubstituíveis. Foi aqui que aprendi a arte sutil de olhar a data de validade dos alimentos, tantas vezes engoli sabores alterados. Para as visitas, não temos água, só cerveja. Uma precisa do cérebro, a outra quer um coração. E para mim, senhor mágico, pode ser um pouco de coragem. Se não posso mais voltar para casa, que ao menos eu consiga enfrentar meus monstros e ser alguém de quem me orgulhe a vida inteira.



sexta-feira, 23 de julho de 2010

O novo (de novo)



Estou convencida de que, de tantas idéias rasas, o mundo acabou afogando em superficialidade. Já não consegue sair do lugar-comum. E o resultado é um entretenimento barato, sustentado por escândalos e fórmulas antigas, reflexos da própria sociedade preguiçosa. Na era dos relacionamentos descartáveis e das redes virtuais, falta originalidade.



Como admiradora do cinema, o único que ainda contava com a minha audiência, percebo a decadência das atrações. Um festival de pirotecnia sem qualquer linha de coerência, reciclagem inédita de velhos clichês. O império da técnica desbancou a criatividade, a filha bastarda cujo investimento de repente é arriscado demais para a grande indústria cultural.




Se antigamente Hollywood era o glamour de suas estrelas e seus grandes diretores, hoje é apenas o plano de fundo apagado de outra dimensão. Já não se paga pela emoção, mas para experimentar uma dose digital de realismo. Se quer fugir, não vai muito além do que já se conhece. E eu digo a esses roteiristas de merda: não quero histórias requentadas, continuações mirabolantes, muito menos refilmagens. Dê-me atuações bem feitas, tramas intricadas e diálogos consistentes. Estou cansada de rir das mesmas piadas, de rever os personagens que já deviam estar imortalizados, mas cujo carisma descongelado garante o público, desacostumado a digerir o novo.




Estamos todos assistindo a um desfile de mortos. Se no cinema ressuscita-se aos montes, na televisão eles sequer descansam em paz. O instinto humano de consumir tragédias faz do noticiário um espetáculo, no qual se disseca os detalhes de uma barbaridade qualquer para prender a atenção do respeitável público. O consumo de desgraça alheia acalenta os pobres de espírito. Não deixe o conforto da sua casa, caro leitor, para apedrejar o vilão da vez. Se a mídia oferecesse o mesmo espaço para divulgar outros horrores, todos descobririam que seus dedos são poucos para apontar os culpados. É para isso que existem tribunais. Dê a César o que é de César, e todos pagarão o preço.


Desculpem-me. Não vou assistir a tudo isso de olhos fechados.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Amores que matam


Ela está em todo lugar.

Acorda decidida a ser feliz, recria no espelho uma imagem de desejo, e nos olhos cobiçosos se faz princesa. No jogo de olhares, falha a intuição. Confia nas palavras doces, não vai longe o preço de sua conquista: um sorriso irresistível e algumas migalhas de amor. A bem da verdade é que nunca quis tropeçar nas promessas de uma paixão covarde. O monstro que sempre esteve ali, disfarçado, cegou sua razão. Não podia imaginar que a mesma mão que segurava a sua com tanta ternura, de repente em vil metal, queimaria em sua pele. Aceita um pedido de desculpas ensaiado, acredita na mudança. Ela sempre espera.





Espera porque ele é um valete de mil facetas. Sabe seduzir, distribuir carinhos, tão bem quanto despeja arrogância e maus tratos. Conhece os caminhos de um romantismo às avessas, mais sexo do que carinho, ao largo do respeito. Usualmente foge ao menor sinal de compromisso, e se fica, aterroriza a quem devia amar. Ela sofre, encolhida em corredores escuros de vergonha, mas as mãos suadas não largam o telefone se ele vai embora. Depois da agressão, qualquer carícia é um retorno ao paraíso. E se por ventura não quer mais provar o veneno daqueles beijos, o medo de escancarar os horrores da intimidade é ainda maior. Ele a tem nas pontas dos dedos, na força do braço, no silêncio de um ameaça.

Ela não sabia que amar podia ser perigoso. Mas a falta de caráter nem sempre espera as crises para emergir, a mediocridade de um homem mora nos detalhes cotidianos do egoísmo, da desmoralização. Que ela, embevecida por tamanho achado, relevou. Dizem que o coração não nos obedece, mas é possível guiá-lo, sutilmente, pelas trilhas de um romance saudável. A mulher que se valoriza não derrama lágrimas de saudade por quem já lhe arrancou uma gota de sangue. Ela simplesmente parte, escapando da humilhação e da tragédia. Se for inteligente, vai perceber a armadilha antes mesmo de cair. É preciso reconhecer os homens de mentira para ser uma mulher de verdade.



sexta-feira, 2 de julho de 2010

Selos



A comunidade blogueira, para indicar aqueles que mais trabalham com afinco em seus filhotes virtuais, criou um sistema de troca de selos, onde cada um indica seus blogs preferidos e tal. E eu recebi dois , Sunshine Awards e Prêmio Dados, do Rafael 10, visitante anônimo aqui do É, pois é!. Aproveito para agradecer o amigo, tanto por vir aqui quanto por indicar os selinhos.

Como diria Arnaldo César Coelho (ou outro comentarista bitolado da Globo cujo nome eu possa ter confundido): "A regra é clara!". Recebeu um selo, deve postá-lo no blog, passá-lo para frente, e também divulgar o blog de quem você recebeu o seu. Então aqui vai o blog futebolístico do Rafael:

http://rafoguense10.bloggeiros.com


E aqui a listinha de blogs que eu contemplo, por minha vez:



http://semumproposito.blogspot.com/


http://calmila.blogspot.com/


http://maaashein.blogspot.com


http://minnynacabeca.blogspot.com


http://ovolumeunico.blogspot.com

sexta-feira, 25 de junho de 2010

As misérias do tempo



Eu odeio o tempo, esse carrasco da disposição cheio de promessas vagas e auspiciosas. Detesto, sobretudo, a maneira como sempre ansiei por ele – e de repente quis anular sua chegada. O velho senhor costurou os milhares de rasgos que eu trazia na alma, a troco de novas feridas e um presente para se alojar. Caminhou pelos meus dias e criticou a minha pressa. E eu percebi que aquela figura impassível que todos me pediam para esperar, nunca sequer foi embora.


A rebeldia que aos quinze atrapalhava, se a vontade não cabia no corpo, fez falta. Agora que posso sair quando quero, as esquinas já não me recebem tão bem. Na casa sem gosto de lar, só cheira a comida estragada, palatável a goles de cerveja. Descobre-se que roupas de cama precisam ser renovadas, e contas não se pagam sozinhas. Que fina ironia essa das horas que convocamos no desespero, e se anunciam sem espetáculo. O querer mais forte desaponta.


Meu detestável companheiro zomba de tamanha ansiedade, sua imprestável comitiva de frente. Aponta-me os espelhos, mostrando com orgulho suas pinceladas mais firmes, que depois de secas ainda escorrerão. E eu aqui, me desdobrando em novos planos, sem viver os segundos que ele traz na manga. É um camarada sagaz, suas notícias de ontem sempre guardam aprendizado. Na verdade, já sei até porque os mais velhos sempre me recomendaram paciência quando se tratava desse hóspede desagradável: É que de tantas maneiras procuro ser feliz, que não notei que já sou.


domingo, 20 de junho de 2010

Cortem os testículos do Justin Bieber!


Olhando com desgosto essa juventude que desfila por ai em cores berrantes, pergunto-me quando é que arrancaram a flor da minha idade. As espinhas que enfeitam esse rostinho de criança enganam, carrego nas costas o peso de uma velhice precoce. Já torço o nariz para essas manifestações culturais estranhas, não sei sequer manejar essa tecnologia dedável, envelheci duas décadas ou mais. Ainda ontem tinha no rosto o ar travesso de quem consegue dominar o mundo, e agora... Agora é difícil sobreviver a ele.




Que saudades tenho da minha geração, aquela que sobrevivia sem Internet, desprendendo prazer apenas por socar as teclas de um Nintendo pré-histórico, das fitas freneticamente assopradas. Na televisão, nossos (saudáveis) heróis eram másculos e viris como os Thundercats e os Cavaleiros do Zodíaco, ou bem mais humildes – vide o Homem codorna. Era uma época feliz, de crianças espertas que sonhavam em receber uma cartinha de Hogwarts ou treinar um pokemon. Crianças que colecionavam tazos, e aplaudiam bandas como Mamonas Assassinas e Legião Urbana. Crianças que não achavam a vida uma puta falta de sacanagem.




Na esteira dos fenômenos andrógenos que despontam no coração das tietes do século XXI, um jovem rapaz com estatura de criança e o tradicional cabelinho lambido vem se destacado. Como a maioria dos artistas que fazem sucesso por ai, a figurinha brilhante surgiu no Youtube. Estou falando de Justin Bieber, o sex apeal recém saído das fraldas, franzino e cheio de marra. E eu me pergunto, o que será desse bebê quando a sua voz sofrer as alterações da puberdade? Aos 15 anos, a estrelinha canadense aparenta 12. A solução que encontrei é simples, meio malévola talvez.

Cortem os testículos do Biba.

Não é uma prática estranha, afinal. Até a metade do século XIX, aliás, era comum castrar os jovens promissores que apresentassem a voz aguda. Dessa forma, impedia-se a maturidade sexual e, conseqüentemente, a deformação daquele belíssimo e límpido canto. Os Castrati eram artistas extremamente caros e valorizados. Infelizmente, a prática foi proibida em 1870. Poupado da violência, a criança crescerá, e seus refrões melosos vão ecoar em outra freqüência. Bom, pelo menos eu apresentei uma alternativa para preservar esse “talento inigualável”. Para não dizer que sou uma velha rabugenta nesse mundo novo.



segunda-feira, 7 de junho de 2010

Notícias sobre o amor


Escapou do submundo das baladas pelas escadas da normalidade excessiva, quem diria. Na adolescência tanto prometia vingar-se da opressão dos pais, ditadores de comportamento, agora virava seu pior pesadelo: uma moça certinha com horror a escândalos. Já não fazia sentido, mesmo, ficar lá parada com a cerveja vazia na mão. Tentando descolar um cavalheiro que lhe pagasse outra, explicando à gentil amiga que “Desculpa, gosto de homem, porra sou hetero”. Música esquisita, um pessoal meio alienígena. Beijos trocados as cegas com o rapaz atrevido: saliva compartilhada a noite inteira. Que infelicidade, que breguice! Não era festeira.

Procurou alternativas, e só encontrou a solidão. De um sábado à noite farto de comédias românticas, sempre voltava ao inferno particular. O espelho do outro dia exibia um ser bizarro - meio panda, meio mulher. Descabelada, desmemoriada e vazia. O destino parecia fatalmente empurrar-lhe para os braços de algum idiota qualquer, não tivesse a dignidade de esperar por um homem. Que esses ai, com essas roupas e adereços coloridos, não são de jeito nenhum. Queria alguém que ouvisse sua voz, antes de obstruir-lhe a boca. Amigo e amante, fiel e leal. Inteligente, ao menos.






Quando ele apareceu, o tal do amor verdadeiro, não fez alarde, tampouco abalou estruturas. Nem voraz, nem encantado. Era uma novidade que não chegava a empolgar, tantos príncipes a vida havia lhe roubado em precipitação. Foi levando a conversa, aproveitando o papo, logo se viu naturalmente apaixonada. Assim leve, assim espontânea. Engraçado, justo agora, quando ela desistia da busca! Que bicho é esse, que foge ao mínimo sinal de caça? Tudo ao seu tempo, já diziam os mais velhos, uma frase feita para esmorecer o presente. Não soube reconhecer o agora. Tinha até medo de acabar com a chance, sofrer como outrora. Ela que tanto prezava o amor e os bons costumes com os quais fora criada, de repente tinha receio de partir o coração pela milésima vez.

Armou-se com a carapaça do orgulho, abusando da frieza. Conseguiu o fim. Amar a si mesmo antes do outro, o primeiro mandamento para um relacionamento saudável... E ao próximo como a ti mesmo, esquecia. Amava tanto a própria pessoa, a ponto de se recusar a se dar para alguém. Isso que, quando criança tanto queria, agora recusava. Dispensou o nobre rapaz, e suas boas intenções, com seus preceitos bobos de pura covardia. Um dia aprenderia que dizer eu te amo não é feio, quando dito com convicção e sinceridade. E, quando se trata de palavras, apenas duas não precisavam ser ditas: “Nunca” e “Sempre”.






Eis aqui o fato, o amor é só um detalhe. Um botão de rosa que floresce na selva de desgarrados, tão bonito a ponto de justificar a existência do mundo. Aromas distintos que seduzem a dedo, e ainda faziam pensar que era sua a escolha. Caem todos nessa armadilha desde que o mundo é mundo e o vínculo se fez. O universo está forrado de promessas traídas, mas enquanto outras ainda são feitas, renovam as esperanças. Nesse terreno reinam a confiança e o respeito. Quando existe paciência, ser feliz é conseqüência.

PS: E quanto à moça dessa história, digamos que ela aprendeu a lição.