Estamos crescendo rápido demais. Não quero mais essas asas ingratas, que não alçam vôos para os lugares certos, só me levam para longe de mim. Estou cansada, e meus pés doem. Sinto sono o tempo inteiro, mas odeio esses lençóis frios e amarrotados, se preciso mesmo é da maciez de um colo qualquer. Essa casa não é um lar, aqui tudo é desarrumado e passageiro, inclusive nós. Acabou-se a euforia esnobe da adolescência, escorreu pelo ralo das responsabilidades, fez vingar os sermões paternais. Falta sempre dinheiro, tempo e amor. Se esse é o preço do reconhecimento, é deprimente se tornar alguém.
Aquela menina magrela de cabelos desgrenhados e canelas tortas, que desenhava no vento realidades imaginárias, foi-se embora em um tornado. Está claro que essa terra de espaços vazios e horizonte empoeirado não é mais o Kansas da minha infância. Perdi pelo caminho um punhado de amigos, e muitos sonhos de grandeza. É difícil ser um castelinho de papel em branco, prestes a ser esmagado pelo peso de qualquer fracasso. Tudo tem o seu tempo, mas chegamos ao momento derradeiro em que não se tem tudo o tempo todo.
Do alto dos tamancos de minha mãe, experimentando ali uma dúzia dos seus batons mais caros, pensava que ser gente grande fosse sempre um espetáculo. Não é. De repente você descobre que roupas de cama precisam ser trocadas, e que arroz e feijão são iguarias insubstituíveis. Foi aqui que aprendi a arte sutil de olhar a data de validade dos alimentos, tantas vezes engoli sabores alterados. Para as visitas, não temos água, só cerveja. Uma precisa do cérebro, a outra quer um coração. E para mim, senhor mágico, pode ser um pouco de coragem. Se não posso mais voltar para casa, que ao menos eu consiga enfrentar meus monstros e ser alguém de quem me orgulhe a vida inteira.










