terça-feira, 16 de agosto de 2011

Rapidinhas

Propus um desafio a mim mesma (mentira, só estava com preguiça de escrever um post decente): criar microcontos em 140 caracteres, ao melhor estilo do Twitter. Foi mais difícil do que imaginei. O exercício de síntese é complicado e fornece grandes empecilhos à imaginação. Mas já que fiz, não custa nada postar. Perdoem-me se estiver muito tosco.

Ciúmes

Encontrou uma foto de mulher na carteira dele e, enfurecida, foi tirar satisfações: – Quem é essa aqui, hein??? – É você, com dezoito anos.

Decepção

Aos noventa anos, descobriu o sentido da vida. Olhou bem para os filhos, netos e bisnetos reunidos, e morreu. Não acreditou que era só isso.

Presidiários

Incrível a quantidade de pessoas que se arrastam pela vida. Às vezes, os grilhões deixam rastros na areia. Como pesam as escolhas malfeitas!

Gramática

É só uma questão de pontuação, tem gente que é vírgula, outras nascem para ser ponto final. – E eu, sou o quê? – Você é sujeirinha no papel.

Inferno astral

Estava tão escrito nas estrelas que caiu feito cometa na cama dele. Mas pediu o divórcio quando descobriu a traição. Ele era de capricórnio.

Poliglota

Falava polonês, árabe, italiano, francês e russo. Apaixonou-se por uma cearense e passou a vida em silêncio. O amor é a linguagem universal.

Modernidade

Saiu de casa e descobriu o Apocalipse, bolas de fogo que despencavam do céu de fuligem enquanto o mundo ruía, e pensou: preciso twittar isso.

Mulher

Fez o escarcéu, disse que queria separar, que ele não a amava mais, que não dava certo... – Tudo bem. – TUDO BEM? VOCÊ QUER TERMINAR COMIGO?

Homem

Na mesa do bar, comentava o vestido curtíssimo da morena: – Que espetáculo! – Em casa, a mesma peça no corpo da esposa: – VAI SAIR COM ISSO?

Comunicação

Vizinhos, suspiravam de amor platônico um pelo outro, mas eram muito tímidos para conversar. Separados pela parede, aprenderam Código Morse.

Romantismo

Em plena lua de mel, sentiu raiva dos tantos filmes a respeito do amor. Ninguém tinha lhe dito que dormir de conchinha dava dor nas costas.

Rinha

Um dia os galos resolveram se vingar. Amontoaram-se no cercadinho, reforçado de milho e água, e fizeram suas apostas. Ganhou o Vítor Belfort

Futuro

A cartomante garantiu que, daquele encontro, sairia o homem de sua vida. Terminou bebendo sozinha no restaurante. Mas casou-se com o barman.


ATENÇÃO!

Ainda não acabou a votação para o Concurso Cultural Eu Amo Escrever... Meu conto está concorrendo e preciso da ajuda de vocês! Só clicar nos coraçõezinhos azuis, pessoal!!

http://www.li3.com.br/clientes/euamoescrever/contos.php?medalha-desonra&p=776

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Eterno conto de fadas


De todas as questões de gênero, nenhuma é tão assustadora quanto nascer menina. Traumatizada pela experiência prévia de tantas criaturas semelhantes da família, eu até quis ser diferente. Pensava: se é para exercer esse árduo ofício de ser mulher, que seja de uma maneira menos sofrível. Veio a primeira menstruação, época de congratulação e constrangimento, o primeiro sutiã – que, convenhamos, não alterou muito de tamanho, e com as monstruosidades corporais, a primeira decepção amorosa. Essa doeu. Eu ardia de amores platônicos. E embebida de rejeição, jurei não ser mais uma donzela frágil exposta aos horrores de um coração esmagado.

Tolice a minha, imaginar-me capaz de resistir ao pendor natural. Que toda mulher tem sim seus momentos de fortaleza. Mas a fraqueza maior, essa atração medieval e torturante que nos acompanha desde o embrião, é mesmo o sexo oposto. Sempre eles, os errantes irresistíveis. Quantas já não bufaram, exasperadas por uma ligação não retribuída ou um ritual ignorado, que os homens são todos iguais? Em defesa deles, ou mesmo em horror a uma conclusão recente, preciso admitir: idênticas somos nós.

Somos nós que caímos no conto do vigário, acreditamos em comédia romântica, e terminamos protagonizando algum dramalhão mexicano. E eu, que prometi imunizar-me dessas frescuras sentimentais, também acabo sempre chorando de raiva por alguma traquinagem tipicamente masculina. Por mais que tente fugir da sina, sempre chega o momento em que nos deparamos com a necessidade da provação amorosa.

Flores, chocolate, promessas de amor eterno e palavras bonitas ditas ao pé do ouvido. Presentes, também, que eles fazem diferença SIM. Não importa o valor. A graciosidade do presente é o detalhe da lembrança. Qualquer rabisco em papel é melhor que uma enciclopédia de ouro, nesse departamento. Claro que um colar de diamantes tem seus méritos, mas isso só se o camarada puder. Ser rico não é pré-requisito. O que importa é ser atencioso. Se não for, vai dar valor quando ela for embora. Eu nunca quis ser uma princesa. Hoje, quero ser mais: quero ser uma rainha valorizada e mimada. Sem romance, sinto-me murcha e infeliz, como uma planta que há muito não prova a seiva do carinho. Quisera eu estar contente com a originalidade do feminismo. No final, o que fica é a vontade de um clichê doloroso de amor.


NOTA:

PESSOAL, PRECISO MUITO DA AJUDA DE VOCÊS... UM CONTO INÉDITO MEU ESTÁ CONCORRENDO NO CONCURSO DE CONTOS DA CANTÃO, VOCÊS NÃO PRECISAM LER SE NÃO QUISEREM, MAS VOTEM! É MUITO IMPORTANTE PARA MIM, UM FAVOR INESTIMÁVEL!

PARA VOTAR, BASTA ENTRAR AQUI: http://www.li3.com.br/clientes/euamoescrever/contos.php?medalha-desonra&p=776

E CLICAR NOS CORAÇÕEZINHOS AZUIS!!!

AGRADEÇO A AJUDA DE TOOODOS!

PS: O CONTO É BACANA.

;D

segunda-feira, 25 de julho de 2011

[OFF] Ajude a Fabi

Olá pessoas amadas que curtem o Pois é.
Esse é um post de utilidade pública.
Estou participando do concurso de contos da Cantão que, infelizmente,
tem voto popular. Para ficar entre os primeiros 50, necessito de vossa ajuda.
Postei meu conto recentemente e preciso urgentemente do voto de vocês.
Para votar (e ler o conto, é claro, é um inédito!)


Só clicar no coração!
Um beijo grande


Ps: FELIZ DIA DOS ESCRITORES

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fina ironia

Death by http://mr-twingo.deviantart.com/


Aos noventa e nove anos, o bom Eustáquio cansou de se deitar. Tentou de todas as maneiras e posições, rolou aos extremos do mar de lençóis que a empregada engomava, quando enfim desistiu de adormecer na horizontal. A família tentou, em vão, persuadi-lo a descansar a coluna curvada por tanta vida. Mas ele, enterrado na poltrona de couro, negou-se a obedecer. Que os ossos virassem pedra, só descansaria se fosse sentado e de olhos abertos.

No fundo inconfessável daquela teima estava um medo repentino. Alguns dias antes, enquanto descascava uma laranja na varada, alguém do lado de lá avisou que a morte viria buscá-lo. Não sabia explicar como soubera, só sabia. E resolveu adiar ao máximo esse encontro que já atrasava algumas décadas. “Pode até chegar”, remoia, os olhos azuis cristalizados de catarata “Mas não vai me encontrar pronto para o caixão”.

Gostava de viver, aquele ali. Descia as ladeiras de pedras irregulares como se fosse ainda o garoto das cocadas, o namorado da Onória, o marido da Ritinha. O tempo só havia passado do lado de fora. Ultimamente, estava certo da perseguição invisível. Se dormisse, era capaz de não acordar – ai dele se não dificultaria o trabalho da malograda. Não conseguiu. Na fila do banco, lotada de cabeças de algodão à espera do benefício mensal, um zumbido de mosca incomodava. Fechou os olhos por dois segundos e, com um soluço de surpresa, morreu. Tanto de dia, quanto de pé.


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Tributo à arte de escrever


Já me acusaram, infinitas vezes, de ser infantil. Admito. Por Harry Potter, torno-me a criança que fui quando o descobri. Vocês não sabem como é. Ou talvez saibam, mas tenham perdido há muito a coragem de assumi-lo. Essa série fantástica que acompanhou a minha geração inteira agora ganha seu último filme. Não significa seu desaparecimento. Claro que não. Todos nós sabemos que boas histórias não morrem nunca.

A humanidade precisa da ficção, não só para amenizar os transtornos de viver sem intervalos, mas enquanto tradução dos anseios e dúvidas. Cada linha escrita e interpretada, seja em qualquer suporte ou era, remete ao desejo de provar outras experiências sem sair do lugar. Esse é o trunfo de nossa capacidade de raciocínio, reinventar o mundo, semeando vida com suspiros de criação. Um bom contista injeta emoção em doses homeopáticas. Melhor ainda, é capaz de despertar paixões por quem não existe.

É indescritível observar o fenômeno dos fãs. A mobilização, o endeusamento talvez. O segredo, quem me dera saber. No caso de J.K Rowling posso dizer com confiança que foi o universo magnífico criado com tanta verossimilhança e carinho. O que começou com um livro infantil desaguou nesses milhões de quase adultos, marcados pelos conceitos de amor, virtude e heroísmo que permeiam a história. Sou orgulhosa de ter participado disso.

Eu poderia dizer, com franqueza, que escritores já nascem feitos. Se não aprendem as letras, contam histórias orais, delineiam personagens à tinta. Mas essa vontade de abrir portas para novos universos é herdada dos outros, os mestres do passado. No meu caso, Rowling deu o pontapé inicial. Se nasci para isso, não sei. Tenho, no entanto, muitas vozes dentro de mim, elas saem dos meus dedos com a mesma avidez com a qual respiro. Longe de me pertencerem. Quando escrevo, não o faço por orgulho próprio. Apenas devolvo ao mundo as palavras que ele soprou no meu ouvido.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Acasos de família

Foto por: http://pictureguy.deviantart.com/


Eu pensei que sabia me virar sem elas, as pessoas. Acreditei-me imune à solidão desvairada de não ter ninguém. Depois de tanto ser rodeada por vozes esganiçadas, agora mal suporto o silêncio constante: desaprendi o ofício da misantropia. Falhei na minha ambição mais constrangedora, de ser independente e viajada. Se arrisco a fuga, volto para casa com o rabo entre as pernas e peço dois copos de leite quente. Já não sei viver sem família.

Perder dói. Quando o amor é grande, então, o golpe deixa feridas incapazes de sarar. Amo tantos que não sei se tenho capacidade de arrancar infinitos pedaços de mim. Mas sem eles, não valeria a pena o tributo de qualquer choro. Consolo de uma lágrima é ter outras com as quais formar uma nascente. O importante é não deixar nossos elos enfraquecerem com o tempo, renovar em vez de esvaecer. Fomos feitos para resistir, como as raízes de árvore que se espalham sem deixar apodrecer as lascas mais antigas.

Eles podem ser tão diferentes de mim que mal cabem no meu sangue. Sabem irritar e cuspir no prato oferecido. Às vezes roubam minhas roupas e, em outras, minha paciência. Não importa. Sempre acabo voltando para os nossos churrascos e discussões. Precisei deixá-los para entender o quanto a solidão pode ser insuportável. Só os meus podem me lembrar de quem eu sou.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Caprichos

Foto de http://freckledmystery.deviantart.com


Nasceu assim, com lábios curvados de felicidade involuntária. Os médicos lamentaram a imperfeição, tentaram remediar o dissabor das gengivas atrofiadas, mas a mãe anunciou: que não ousassem costurar a beleza daquele rasgo. “Seu sorriso”, dizia à pequena menina, enquanto penteava-lhe o cabelo, “É a vírgula mais bonita que Deus colocou no mundo”. Assim cresceu Anabela. Sorrindo sem os olhos, sorrindo eternamente, até quando não queria.

Costumava fugir da tristeza dos outros. Seu rosto zombava da dor alheia, melhor economizar condolências e retrair-se nos próprios conflitos. Ela, que espelhava disposição, só sabia ser rancor. Odiava olhares enviesados, risadas abafadas, as piadas prontas feitas de covardia. Qualquer alegria estampada logo se dissipava na amargura dos ombros caídos. A moça do sorriso automático nunca ria.

Anabela não acreditava no amor. Em vinte e nove anos, nunca havia experimentado a euforia de uma paixão. De beijo, só um, roubado durante as mágoas da bebedeira. Nem isso resolvia a rigidez da boca irreverente. Quando Anabela conheceu Ricardo, o descolado novo vizinho, de imediato detestou tamanho bom humor. Se quisesse ser seu amigo, que falasse direito e arrancasse do rosto aqueles malditos óculos escuros. Ele obedeceu. As lentes escondiam um par de olhos vermelhos, lacrimosos, seu oposto mais cruel: mesmo com olhar de vidro, não sabia o que era chorar. Apertaram-se as mãos e nunca mais desfizeram. Pela primeira vez, ela sorriu por dentro.