Ela está em todo lugar.
Acorda decidida a ser feliz, recria no espelho uma imagem de desejo, e nos olhos cobiçosos se faz princesa. No jogo de olhares, falha a intuição. Confia nas palavras doces, não vai longe o preço de sua conquista: um sorriso irresistível e algumas migalhas de amor. A bem da verdade é que nunca quis tropeçar nas promessas de uma paixão covarde. O monstro que sempre esteve ali, disfarçado, cegou sua razão. Não podia imaginar que a mesma mão que segurava a sua com tanta ternura, de repente em vil metal, queimaria em sua pele. Aceita um pedido de desculpas ensaiado, acredita na mudança. Ela sempre espera.
Espera porque ele é um valete de mil facetas. Sabe seduzir, distribuir carinhos, tão bem quanto despeja arrogância e maus tratos. Conhece os caminhos de um romantismo às avessas, mais sexo do que carinho, ao largo do respeito. Usualmente foge ao menor sinal de compromisso, e se fica, aterroriza a quem devia amar. Ela sofre, encolhida em corredores escuros de vergonha, mas as mãos suadas não largam o telefone se ele vai embora. Depois da agressão, qualquer carícia é um retorno ao paraíso. E se por ventura não quer mais provar o veneno daqueles beijos, o medo de escancarar os horrores da intimidade é ainda maior. Ele a tem nas pontas dos dedos, na força do braço, no silêncio de um ameaça.
Ela não sabia que amar podia ser perigoso. Mas a falta de caráter nem sempre espera as crises para emergir, a mediocridade de um homem mora nos detalhes cotidianos do egoísmo, da desmoralização. Que ela, embevecida por tamanho achado, relevou. Dizem que o coração não nos obedece, mas é possível guiá-lo, sutilmente, pelas trilhas de um romance saudável. A mulher que se valoriza não derrama lágrimas de saudade por quem já lhe arrancou uma gota de sangue. Ela simplesmente parte, escapando da humilhação e da tragédia. Se for inteligente, vai perceber a armadilha antes mesmo de cair. É preciso reconhecer os homens de mentira para ser uma mulher de verdade.